sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Repare Bem ( Les yeux bleu)

Eduardo Leite, o Bacuri, nasceu em 1945 e morreu assassinado pela ditadura em 1970. Vivi esse tempo, nasci no mesmo ano e fiquei impressionada. Denise Crispin e sua filha, Eduarda Crispin Leite, nos contam uma história estarrecedora. Denise e Bacuri se conheceram em tempos difíceis, se apaixonaram e tiveram uma filha, que não chegou a conhecer o pai. Histórias da ditadura no Brasil são insuportáveis. Seria menos doloroso não assistir a filmes que falam dessa escuridão... Sei que é importante que nossos filhos conheçam essa face do Brasil, enfim...
Denise, na foto aos 21 anos, é tão diferente da mulher sofrida que nos fala que pensei ser outra pessoa; pensei que era uma atriz. Segundo ela, Bacuri era um homem lindo! Além de ter sido torturado por mais de cem dias, teve o rosto e o corpo destruídos. Denise observa que o rosto destroçado de Bacuri, para ela, é como se sua beleza física fosse insuportável para seus algozes. Reconheci sua foto. Deve ter saído em muitos jornais.
A história das duas mulheres é dura, um verdadeiro massacre. Mesmo assim nesse tipo de filme às vezes, um detalhe é o que pode emocionar o espectador. Para mim, a fala de Eduarda, no final, derruba a mais fria das criaturas. Eduarda é linda, com os olhos do pai - adoro ver semelhanças entre pais e filhos! A jovem fala que não conseguia dizer quem era seu pai. Tinha problemas para assumir a identidade do pai. Não sabia o porquê, mas não queria dizer que era filha de um prisioneiro político assassinado pelo regime militar!
Quando o governo brasileiro pede desculpas por tudo o que aconteceu, Eduarda sente que seu sofrimento torna-se menos pesado. Sinto profunda tristeza, pelos milhares de jovens - com a mesma idade de Eduarda - que sofreram problemas semelhantes, e para quem ninguém pediu desculpas ou sentiu-se responsável. O sofrimento no anonimato não é menos doloroso.
Todos os brasileiros foram privados de seus direitos, cassados de sonhos e liberdade. Somos sobreviventes do medo e da desesperança. Maria de Medeiros é uma mulher genial ao permitir a ambas, a realização de um ato de coragem e libertação. Mas Denise alerta: Não vai descansar enquanto o outro lado não contar a sua versão, sua história não terminou. Quer conhecer a versão dos assassinos que não foram punidos até hoje. De Eduardo restam as lembranças dos olhos azuis inesquecíveis.
 

domingo, 25 de agosto de 2013

Tese sobre um homicídio

Os créditos da qualidade de  "Tese sobre um homicídio" devem-se em grande parte à novela de Diego Pazkowski. A trama é surpreendente. Assisti duas vezes e gostei mais na segunda. Hérnan Golgfrid, o diretor, desde o início fornece as pistas para o espectador descobrir o criminoso. Mais fácil do que num romance de Agatha Christie, quem sabe até de forma bastante explícita. Assim, não é segredo para ninguém a identidade do criminoso. 
Em "Tese sobre um Homicídio" Roberto Bermudez (Ricardo Darin),  professor criminalista da Universidade de Buenos Aires, mantém uma espécie de duelo com seu aluno Gonzalo (Alberto Amman).
O espectador talvez não perceba, mas o interesse de Gonzalo pelo professor vai muito além do de um aluno por seu brilhante mestre. Os flashbacks redundam quando mostram Bermudez em festas familiares com Gonzalo, ainda menino, o pai e a mãe. O professor parece próximo demais da mãe do menino... Em conversa com Bermudez, Gonzalo fala que o único desejo de sua mãe era ficar longe de seu pai. A causa da tamanha desgraça que se abate sobre os dois,  seria o desafio de um possível filho mal amado e não reconhecido pelo pai?  As explicações geniais ficariam por conta de psicólogas e psiquiatras. Chamem as psicólogas e psiquiatras, por favor!
O clima do filme torna-se interessante quando se estabelece a disputa entre  Bermudez e Gonzalo. E tudo em tentativa mortal de provar que o aluno é melhor que o professor.
Dentro do campus da Universidade, uma mulher é brutalmente assassinada. Usa uma correntinha em formato de borboleta, Bermudez nota que a correntinha não deixou nenhuma marca no pescoço, após as sevícias que causaram a morte.
Em discusão anterior, Gonzalo dissera ao professor que não exista justiça, que a lei estava a serviço dos poderosos. Se alguém matasse uma borboleta não seria preso, a menos que ela pertencesse a um poderoso colecionador.
A morte é  anunciada, no meio da aula, Gonzalo é o último a levantar-se. Não olha pela janela, como todos os outros, quer ver a reação do professor... Bermudez não resiste a fazer suas próprias investigações. Tem como certa a identidade do assassino. No meio jurídico, e na vida real, uma coisa é suspeitar, outra é provar. Emocionalmente envolvido, o professor tropeça.... Ao perder a cabeça, perde a razão...Invade a casa de Gonzalo, obtendo provas por meios ilícitos.
Ironia do destino, para matar sua próxima vítima,  parece ao espectador, que simbolicamente o assassino usará uma pequena espada da justiça. Não por acaso, Gonzalo tinha entregue uma pequena espada da justiça como presente de seu pai  ao professor.
Parece que Diego Pazskowski e Hérnan Gilfrid se divertem fornecendo  pistas ao espectador...Bermudez vai caindo aos poucos. Todas as suas provas são refutadas e até usadas contra ele. Bebe muito, torna-se um alcoólatra ou já era dependente do álcool, devido a problemas não resolvidos, quem sabe com a mãe de Gonzalo? Isso sim, o diretor deixa para o espectador decidir.
O aspecto de Bermudez piora, ele definha. Os olhos ficam empapuçados de tanta bebida. Mas enfim, e aquela barriguinha proemiente, e as calças sem corte? E os sapatos marrom? Seriam de um professor desleixado ou os homens de meia idade, na Argentina e no Brasil, são descuidados consigo mesmos? Parecia o meu tio de Dom Pedrito, falecido há muitos e muitos anos. A beleza dos olhos azuis, nessa hora, sumiu... Darin tem mesmo bolsas sob os olhos ou é só para interpretar?
E Gonzalo rouba tudo de Bermudez, desde a capacidade de mostrar que é superior até a mulher que atraía o professor. Para humilhar, lhe sussurra ao ouvido, dizendo baixinho, que tem seguido  seus conselhos,  tem praticado muito sexo! Finalmente,  com frieza e crueldade suprema, ironiza  o mestre, quando afirma que não vai prestar queixa à  polícia. É mais ou menos como matar uma barata e esmagar com o pé...
Não perca, os filmes argentinos estão cada dia melhores!


 

domingo, 11 de agosto de 2013

Red 2- Aposentados e ainda mais perigosos

Ninguém deveria deixar de ir ao cinema quando está passando um filme com Bruce Willis, John Malkovich, Helen Mirren, Mary-Louise Parker, Catherine Zeta Jones e Anthony Hopkins. Ainda mais uma segunda versão de "Red, aposentados e perigosos". Sabemos que a diversão está garantida, e o filme não decepciona. É baseado na série em quadrinhos de Warren Ellis e Cully Hamner, publicada pela DC Comics.
 
 A caçada é inevitável quando Frank Moses (Bruce Willis) descobre que seu amigo Marvin Boggs (John Malkovich), oficialmente morto, de fato, não estava morto, mas fugindo de inimigos mortais. A situação fica ainda mais perigosa quando Frank é preso  e descobre que uma bomba abandonada no Kremlin está prestes a ser detonada. O enredo é cheio de surpresas, tudo o que parece não é exatamente aquilo que o espectador pode estar pensando. Han (Byung-Hun Lee) é uma verdadeira máquina de matar. O ator sul-coreano brilha mais uma vez ao lado dos famosos "retired and extremely dangerous". 
 
O tom romântico fica por conta do relacionamento entre Frank e Sarah Ross ( Mary-Louise Parker) . Ele é super protetor e deseja preservar a namorada custe o que custar. Sarah deseja participar de tudo e não se entrega quando descobre que seu grande amor teve um relacionamento com a bela Katja (Catherine Zeta Jones). As saídas de Sarah, são ótimas e Marvin descobre que o grande trunfo da personagem é ser uma mulher de quem todos gostam. Assim, as picuinhas entre as duas atrizes, apimentam e divertem. Helen Mirren está ótima como sempre, como a  ex-companheira Victoria.  Divertido é que todos dão palpites sobre o relacionamento  de Frank e Sarah, e torcem para que ele finalmente atinja a uma estabilidade emocional.
 
O clímax do filme é a cena de ação em que Han dirige um carrão azul, que faz arrancadas laterais. É assim, o carro encaixa embaixo de um caminhão e saí quase voando, rodando de lado, dá para entender? E a nossa bela Victoria, no auge dos seus 67 anos arrasa no tiroteio. Usa ambas as mãos.  Nas janelas laterais do carro, aparecem só as mãos, segurando os revólveres e dando tiros para todo lado! Cuide é o máximo!
 
Não dá finalizar sem falar no genial John Malkovich que, meio estrábico, fica ainda mais engraçado. Você não pode deixar de ver as caretas que ele faz! 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tabu

Tabu, o filme de arte dirigido por Miguel Gomes, recebeu cinco estrelinhas na cotação de Zero Hora. Para o comum dos mortais não é fácil assistir a Tabu, o nome da Fazenda onde vivia a personagem principal, na África. Miguel Gomes propõe um excessivo distanciamento em relação ao filme. Principalmente na segunda parte, o tom de voz do narrador - falando em português de Portugal - em minha opinião contribui para a antipatia do espectador em relação à obra. A linguagem formal lembra cartilhas de antigamente. Enfim o nosso português para se ouvir e falar é muito mais bonito. O próprio personagem que relata a tragédia, não sente a menor emoção e parece completamente distante do jovem, inquieto e apaixonado que vemos no filme.
A história é relatada em atos, invertendo-se a ordem no tempo. Miguel Gomes inicia mostrando a vida de Aurora, uma idosa, solitária, que aos poucos entra em processo de demência. O diretor mostra um profundo conhecimento da velhice e do sofrimento dos idosos. Ao que parece o filme retrata, em parte, o comportamento de um de seus familiares. Quem acompanhou o final da vida de qualquer idoso, encontrará muita coisa de familiar no Tabu de Miguel Gomes.
Retirando-se esses pontos positivos e o tom belíssimo da fotografia em preto e branco, a segunda parte é previsível. Aurora (Ana Moreira)  é uma jovem mimada e arrogante que vive o poder dos brancos no período colonial africano. Bem casada, possui uma certa bipolaridade no comportamento. Grávida, apaixona-se por Gian Luca-Ventura ( Carloto Cotta). O jovem irresistível é o mesmo idoso que, em outro tempo,  narra a história. Ventura poderia ser uma versão atual de Jacques Perrin,  com muito menos charme e beleza. Aliás, os dois dentinhos da frente, desalinhados, prejudicam o seu sorriso.
Finalmente o espectador descobre que havia algo de podre no reino da Dinamarca. E Miguel Gomes insere elementos em homenagem a Murnau, o diretor alemão que dirigiu Tabu, em 1931. Estão presentes superstições, instintos selvagens e predadores. A presença do crocodilo faz um paralelo com a agressividade de Aurora. Enfim, Tabu mostra desejos,  crimes e paixões inconfessáveis que passam  distantes do espectador.
 Em tempo,  o filme passou na 62 a. Berlinale,  ganhou o prêmio Alfred Bauer e o FIPRESCI, da crítica internacional, como o melhor filme em competição!