Miguel Gomes é um jovem de 37 anos. Aquele Querido Mês de Agosto estreou em 2008 na Quinzena de Realizadores, em Cannes. O filme foi exibido em festivais internacionais de cinema. Ganhou muitos prêmios, inclusive o da Crítica no 32º. Festival Internacional de Cinema de São Paulo, em 2008.
Depois de assistir duas vezes a Inglourios Bastardes foi desconcertante o efeito de Aquele Querido Mês de Agosto. As palavras do próprio diretor talvez auxiliem:
A vida nem sempre é fácil, meus amigos! Em Julho de 2006, ocorre uma pequena calamidade. A rodagem do filme, prevista para o mês seguinte, é adiada para data incerta. Falta dinheiro à produção para um argumento exigente, a ser rodado no interior de Portugal durante as festas de Agosto, e opções de casting ao realizador. Rapidamente recuperado do choque, este decide partir para o terreno com uma câmara de 16 mm e uma equipa composta por cinco elementos – pequena mas brava! – e filmar tudo aquilo que lhe parecesse digno de registo, comprometendo-se a reformular a ficção em conformidade. Esta história e as que se lhe seguiram poderão encontrá-las no filme; embora, por amor à verdade, se deva reconhecer que as aparências iludem e que certos realizadores têm uma propensão genética para a mistificação.
Documentário? Ficção? A meio deste filme vemos uma ponte: a ponte romana de Coja sobre o rio Alva, da qual se atira Paulo “Moleiro”. Sem querer parecer Confúcio, diria que de qualquer uma das margens que esta ponte une se avista perfeitamente a outra. E que o rio é sempre o mesmo.
- Miguel Gomes -
O filme de Miguel Gomes tem muito daquele tipo de produção de amador, de pai filmando o aniversário do filhinho. E tem muito também do talento de observar a vidinha pacata no interior de Portugal. Em tudo semelhante ao Brasil, os bailes, as bandas, os karaokês, tudo remete a um Brasil, meio caipira também.
E mais, as senhoras simpáticas, humildes moradoras de subúrbios, pesadonas, de vestidos escuros. Eram tão autênticas, afinal eram as próprias! Em minha vida sempre encontrei essas senhoras, uma delas poderia ser a minha avó, que sempre pareceu uma adorável velhinha portuguesa. Os olhinhos eram de cor indefinível, verdes, azuis, ou uma mistura de castanho, verde e azul? O cabelo era branco, repartido ao meio, com uma trança, presa, em coque, na nuca. Não somente minha avó, mas muitas senhoras que conheci em Dom Pedrito, estavam todas no filme de Miguel Gomes.
E a procissão? Ha! As procissões nas cidadezinhas brasileiras são a própria herança portuguesa. Em Garopaba é a mesma coisa. Em Rio Pardo os anjinhos com suas asas são fascinantes e lembram os filmes de Pasolini. Tudo isso lembra infância. Cantorias que no fundo não aumentam a nossa fé, mas que gostamos de ver e ouvir. É pitoresco, é o Brasil-português. Nunca pensei que fossemos tão parecidos. É como se aquele enterro em Garopaba estivesse dentro do filme. Quando topamos com o enterro, a emoção foi muito forte. Chorei mais que os parentes do falecido. Não foi a primeira vez. Voltamos, o passeio foi adiado.
Assim, por mais cansativo que parecesse, o filme de Miguel Gomes é tocante. Os bailes lembram o nordeste brasileiro que não conheço, mas é como se conhecesse. As letras das músicas são ótimas, a de Nossa Senhora foi gravada por Roberto Carlos.
Acho que Miguel Gomes poderia ter mostrado a cidade, valorizado a arquitetura e o espaço da cidadezinha portuguesa, como fez Luís Galvão Teles em Dot.com. Mesmo assim a Ponte Romana, de Coja, sobre o Rio Alva, de onde Paulo “Moleiro” se atirava no Carnaval é bela por demais e é uma aula de arquitetura.
O filme começa como um documentário, sem roteiro. Assim, sem maiores preocupações o grupo começa a filmar. Miguel Gomes procura mostrar efetivamente a vida das classes populares, a vida dos subúrbios. A preocupação das pessoas com comemorações de aniversários, festinhas, encontros e passeios de fim de semana, bandas e banhos de rio. Enfim coisas muito interioranas. Ele nos fala, de forma patética, da maneira de viver dos portugueses. Com certeza é brega e de mau gosto, mas traz um mundo que pensávamos estar perdido em nossas lembranças. O kitsch tem seu fascínio. Alguns cantores eram horríveis. Um deles, de cabelo engomado, crespo e alisado à força, seria a versão portuguesa do Roberto Carlos? Não, é possível, o rei é único!
Repentinamente aquelas pessoas estão enredadas, o diretor caminha para o lado do incesto. Mistura-se realidade e ficção. Por isso mesmo a ficção parece tão verdadeira. Mas estava tudo tão bem... Não queríamos pensar nesse tema tão doloroso! Com o maior bom humor Miguel Gomes recoloca o tema do incesto, quando o cantor rima e canta - que com certeza aqueles dois não eram pai e filha, mas sim marido e mulher! A cena por si só valeu o filme.
Diga-se de passagem, os portugueses fazem jus à fama que possuem no Brasil. Nenhum membro da equipe, nenhum dos cinco dignou-se a dirigir a palavra para a jovem que queria participar das filmagens. Ela precisou desafiar o cineasta na jogatina. Se acertasse o alvo, participaria das filmagens. Coisa de português, não é mesmo?
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO
BASTARDOS INGLÓRIOS
Eu não gostava muito do Quentin Tarantino. Passei a amá-lo desde sexta-feira. Tarantino faz o quer com a platéia. Todos riem na hora que o diretor quer. Todos ficam num silêncio sepulcral um segundo depois. Tudo por obra e graça do diretor que sabe o quer.
Inglourius Basterds é um filme genial. É pura diversão e imaginação, que passa
longe da realidade histórica. Tarantino homenageia o cinema e seus diretores.Faz seu filme recuar a 1700 a. c., ao Código Hamurabi, inspirado na Pena de Talião, que implica na rigorosa reciprocidade do crime e da pena, apropriadamente chamada retaliação. A lei é expressa pela máxima, olho por olho, dente por dente. Assim, todos os crimes nazistas simbolicamente são remidos através da retaliação. O grupo americano, do comandante Aldo Raine (Brad Pitt), com nove feras, os Inglourius Basterds, caça os nazistas, e os faz purgar por seus crimes. A cada soldado cabe a cota de retirar cem escalpos inimigos. O espectador identifica-se imediatamente com os Inglourius Basterds. A platéia vibra e aplaude no final, em verdadeira catarse.
Impera a barbárie, que supera em violência, a sutil crítica de Chaplin – repetida por Jerry Lewis - em memorável filme onde ele espetava o peito do alemão nazista com a medalha que o condecorava. A cena é inesquecível e vibrante.
Tarantino conta uma história em capítulos. No primeiro Era uma vez, antes da primeira cena, ouvimos a música de Ennio Morricone. De antemão sentimos a tragédia. O ano era 1969 quando assistimos ao belíssimo Era uma vez no Oeste, de Sérgio Leone, com a jovem Claudia Cardinale. No silêncio e amplidão da paisagem desértica, um homem e seus filhos são brutalmente massacrados. Tarantino recria Leone. No filme de Tarantino, a paisagem é belíssima. Vemos os campos verdes da França. O ano é 1941. Pierre LaPadite (Denis Menochet), o fazendeiro, corta lenha e sua filha estende os lençóis. Ao longe, a jovem vislumbra o grupo de nazistas. O coronel Hans Landa se aproxima, escoltado por indefectíveis soldados em suas motinhos. Christoph Waltz faz um Caçador de Judeus, tão descarado e cínico que espanta a mais insensível das criaturas.
Como nazista Christoph Waltz está perfeito e envolvente. Suas expressões faciais e os movimentos com as mãos só enriquecem o personagem. Fala com suas vítimas com gestos polidos e delicados, que não escondem o seu veneno mortal. Landa sente paixão pelo que faz. Considera uma missão sublime caçar judeus e matá-los impiedosamente. Interessante no filme é observar como ele tenta se controlar e seduzir suas vítimas, para finalmente dar-lhes o golpe de misericórdia. Sentimos que teremos a vez antes do filme terminar. Landa se intitula parente do falcão. Em seu imaginário, os alemães são os falcões e os judeus, os ratos. De fato, Hans Landa é uma víbora desprezível e sórdida. Rato para ele seria elogio.
Em quatro situações vemos o jogo de Hans Landa com suas vítimas. Primeiro com Pierre LaPadite, pai das três jovens, que esconde a família Dreyfus em sua casa. Senta-se à mesa e conversa com o fazendeiro. Faz questão de tomar um copo de leite. Landa escolhe falar o francês, que domina com perfeição. Para as vítimas não entenderem - estão sob o assoalho -, passa a falar em inglês. Despede-se novamente com os termos mais polidos, em francês, e aponta para o chão indicando onde seus sicários devem atirar. A explosão de violência é assustadora.
Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) foge. Através do retângulo da porta, a paisagem verde e luminosa a envolve. Em oposição, a silhueta negra do nazista aponta a pistola. Sem vontade, o coronel protela a caçada. Como o predador que se diverte com a presa, deixa a refeição para mais tarde. Está momentaneamente saciado.
O segundo encontro com a jovem judia não é menos assustador. Shosanna é “convidada” por Frederick Zoller, o herói nazista, para ir ao seu encontro, onde está Joseph Goebbels. Daniel Bruhl interpreta Zoller. Lembram do adorável jovem que escondia as mudanças na Alemanha Oriental, em Adeus Lenin? Landa pede para falar em particular com a jovem, e propositadamente lhe oferece um copo de leite. Shosanna treme. Com essa mesma cara de pedra ele se levantara antes de ordenar, placidamente, o massacre na casa de LaPadite. Num segundo seu semblante muda. A dureza se desfaz em um sorriso cínico. Afirma que esquecera o ia dizer. Landa domina a intimidação, manipula seus opositores. Faz um jogo que envolve um trato onde ele sempre pretende sair vitorioso.
O grupo dos Inglourius Basterds poderia ser Os Doze Condenados (1967), de Robert Aldrich, chefiados por Lee Marvin. O filme representava o máximo no desprezo aos militares, à hierarquia e à obediência na caserna. Assim como em The Dirty Dozen, cada bastardo tinha sua especialidade. Um deles, Donny Donovitz (Eli Roth), o Urso Judeu, golpeava nazistas com um bastão de beisebol. O outro Hugo Stiglitz (Til Scheiger) matara treze alemães da Gestapo, alistando-se nas linhas inimigas. Desta forma a platéia libera seus maus instintos e fica fascinada com a pancadaria em que Stiglitz, à moda Robert de Niro, em Os Intocáveis, arrebenta a cabeça do alemão com o bastão de beisebol. O outro nazista não tem tempo de se mexer, leva um tiro pelas costas! Pasmem! Só não foi bem um tiro na nuca à moda nazista. É isso aí, na hora da loucura é olho por olho e dente por dente.
Mas o melhor está por vir. O capítulo três intitula-se German Night in Paris. Mostra Shosanna em sua sala de cinema onde passam filmes de Leni Riefenstahl e do diretor austríaco Georg Wilhelm Pabst. A jovem esclarece que os franceses prestigiam os diretores de cinema, independente da vontade dela. Influenciado por Zoller, Goebbels escolhe o cinema de Shosanna para fazer a grande noite alemã. O filme de estréia será O Orgulho da Nação, estrelado pelo próprio herói nazista, Fredrick Koller. Assediada por Zoller, Shosanna decide explodir sua sala de cinema com os quatro grandes líderes do nazismo, cuja morte se fosse possível, decidiria o fim da guerra naquela noite.
Paralelamente, o grupo dos Inglourius Basterds planeja a Operação Kino. O grupo pretende explodir o mesmo cinema. Brad Pitt está muito divertido, com o rosto bolachudo, imitando um legítimo americano do Tennessee, um herói com ascendência apache. Tarantino mostra a ingenuidade dos heróis que lutam contra o nazismo. Os Inglourious Basterds também parecem os dez patetas. Aldo Raine com os seus oito, mais Hugo, arrecadado na prisão. São hilários nas bobagens que fazem e nos foras que protagonizam. Como todo filme da Segunda Guerra Mundial não poderia faltar uma espiã loura. Em Inglourius é a atriz Bridget Von Hammersmark, interpretada por Diane Kruger. Como Helena, quase fez Tróia desandar. Está mais convincente em O segredo de Bethoven e neste filme.
No quarto encontro de Landa com suas vítimas, Bridget é convocada para uma conversa particular com o Caçador de Judeus, nos preparamos para o pior. Como na Gata Borralheira, o sapatinho de cristal serve no pezinho da atriz e significa sua condenação. Nesse momento Landa cede aos seus fantasmas. Realiza o seu desejo de matar. Quando sai da sala seu rosto está aliviado por ter saciado toda a sua barbárie.
O jogo de sedução entre Fredrick Zoller e Shosanna não se realiza. Ele é o herói nazista que interpreta seu próprio papel no filme dentro do filme, O Orgulho de uma Nação. Zoller é amado pelos nazistas e se compara a Gary Cooper, em Sargento York e Van Johnson.
Shosanna não cede ao assédio de Zoller. Na mais bela sequência de planos, depois de preparar-se para a guerra pintando o rosto, se veste de vermelho. Esta recostada em uma janela, que lembra o rolo da película cinematográfica. Quando Zoller destrói seus planos, não lhe resta alternativa, senão matá-lo. Eis que nesse momento ela fraqueja, pensa na terrível possibilidade de amar um nazista. Zoller, quase morto, se vira e dispara um tiro com a mão esquerda. Que nem um Romeu e Julieta às avessas os amantes que nunca realizaram seu amor, morrem juntos. A cena é belíssima, ela de vestido vermelho, toda manchada de sangue é filmada em plongè.
E vence o cinema, Shosanna está morta, mas o cinema está vivo. Como um fantasma, em gargalhadas, a imagem de Shosanna, enorme, toma conta do cinema e espalha o terror. Vingança e fogo enchem a tela.
E Landa, que sempre estabelecia o jogo de sedução com suas vítimas, tenta fazer o mesmo com Aldo Raine pela quarta e última vez. É genial, espere para ver. Mas não esqueça, Aldo usava um facão, daqueles de escalpo, para marcar nazistas com uma suástica, na testa, para que fossem reconhecidos quando tirassem seus uniformes. Isso causava o maior ódio no Fuhrer. He,he, he!
sábado, 10 de outubro de 2009
ANTICRISTO
Lars Von Trier é um diretor exótico, diferente, de outro mundo. Anticristo provocou espanto e vaias no Festival de Cannes. Não foi bem aceito pela crítica. O filme provoca controvérsia. Anticristo nos causa mal estar, escandaliza e provoca risos nervosos na platéia. Ninguém se identifica com ninguém. Os personagens passam longe de nós, por mais que cada um possa sentir-se com problemas psicológicos. Será isso mesmo? Ou negamos o horror que possa existir em nós?
Lars Von Trier é assim, desde a patética ceguinha que era roubada pelo amigo em quem confiava até Nicole Kidman – deixando todos fazer o que quisessem, com ela – reagindo e assumindo seu ódio e sua matança.
Anticristo é muito mais desconcertante. Nos filmes anteriores, para o espectador pelo menos, havia o efeito de catarse, um efeito purificador, de tragédia clássica, com situações dramáticas, de extrema intensidade e violência. Vinham à tona sentimentos de terror, ódio e vingança, proporcionando alívio ou purgação. Matávamos junto com Nicole todos aqueles que nos tinham causado mal algum dia. Mas, em Anticristo, o que é aquilo?
O casal perde o filho em circunstâncias trágicas e se recolhe na floresta para purgar seus pecados. O filme é sombrio e escuro. Na floresta nunca vemos os personagens fazendo alguma coisa que as pessoas normais fazem: comer, dormir, vestir-se, arrumar a casa, fazer o almoço. Ou no mínimo comprar alguma coisa para sobreviver na floresta, onde não havia nada a não ser o verde a perder de vista.
A mulher sente-se culpada pela morte do filho, não pára de chorar. Toma muitos remédios. O marido, um terapeuta, que vivia afastado da família decide recuperá-la. A situação entre os dois vira a oposição entre médico – que domina a situação – e paciente –, que se submete. O lance de saída é antiético. Não é preciso pensar muito para saber que não se deve ser juiz e réu na mesma causa.
Com o desconforto, de que a paciente faz sexo com o terapeuta. A única coisa mesmo que o casal faz é sexo, isso sim. Apesar da fossa profunda e interminável, o sexo continua. Aliás, foi na hora do sexo que o bebê saiu a andar pela casa e caiu tragicamente da janela. Mas eles não colocaram uma grade? Bem, assim não teríamos o filme, não é?
A mulher deve pensar no seu maior temor. E o homem a fará sentir esse medo. Por isso a experiência na floresta. Era o que ela mais temia. Você pensou no seu maior temor? Morrer queimada, cair de um avião? Ficar presa num caixão? Ou na câmara de ressonância magnética? Ser seqüestrada? Sofrer um trágico acidente de trânsito? Ou o pior temor ver seus entes queridos flagelados, amputados, morrendo devagar e não poder fazer nada? Ou mortos? Ou o pior, ver seu filho morto?
Este foi o pior e aconteceu ao casal que não superou nunca. A morte de um filho ninguém supera. Mas a vida deve continuar. Não para o casal do filme que entrou em processo de decomposição.
Anticristo possibilita muitas interpretações. Uma delas acena para o ato falho da mãe, que teria colocado os sapatos trocados no bebê. Podemos ensaiar com a possibilidade de ela já estar louca e demente, ou ainda ter iniciado um processo de loucura. O diretor enfatiza que a autópsia evidencia deformações nos pés do bebê. O marido descobre que foram causadas pelos sapatos trocados. Assim, a mãe teria sucumbido à loucura muito antes. Quem sabe, trocando os sapatos do filho para ele permanecer dependente. Sempre teria um filhinho não crescido para proteger.
O espectador sente que a mulher fora derrotada pelo processo de loucura. Quando é flagrada pelo marido rebela-se, e passa de paciente submissa, a cruel e fria assassina. Sente-se culpada devido ao sexo, quer punir o marido e a si mesma.
Os dois entram em um embate destrutivo de luta por poder, luta do feminino contra o masculino. A mulher que desenvolvia uma tese sobre o martírio das mulheres na Idade Média reproduz a situação no embate contra o marido. Identifica-se com as bruxas martirizadas pelo poder masculino. Na verdade as mulheres somente eram bruxas, porque representavam ameaça ao poder masculino. De fato, eram mulheres fortes a quem os homens temiam. Bruxas na acepção masculina, que temia dividir o poder com as mulheres. Por isso o apelido bruxa, que justificaria sua destruição.
Ou ainda, o filme mostra aspectos simbólicos da loucura que está dentro de cada um de nós. Nada aconteceria de fato. Tudo seriam projeções do mal. Lars simbolicamente estaria se referindo à própria existência do mal e às formas como ele pode se manifestar. Ele falaria dos pensamentos insanos e destrutivos ligados ao mal puro em nós, seres humanos. Sentimentos tão ruins e tão maus que não permitimos sua realização. Fazemos com que fiquem enterrados dentro de nós. O id louco do nosso inconsciente que precisa ser domado.
Quem sabe?... Muitos seres humanos permitem aflorar um único sentimento. O medo de ficarmos loucos – quando estamos à beira de um abismo, ou de uma ponte –, e por pura loucura e insanidade nos jogarmos no abismo. Alguns falam que têm medo das alturas. É possível que medo não seja a palavra adequada, loucura viria a propósito. Por las dudas, é melhor nunca ficar perto de pontes ou coisa parecida. Lars falaria dessa loucura, que desconhecemos, porque não permitimos sua emersão, para que não tome conta de nós. Tememos o mal que poderia nos causar e aos outros.
Em Anticristo a representação do mal, que poderia ser somente a idéia do mal se concretiza com a morte da criança, e no momento em que a mulher pune o homem atingindo-o no falo. Simbolicamente castrada, a mulher quer retirar a força do homem, fazendo-o sangrar pelo pênis. Não satisfeita amarra-o a uma mó, com uma haste de metal. Vencido, o homem vira um bicho e se esconde numa toca. Os animais da floresta parecem assustados com a selvageria dos instintos, à solta, dos seres humanos. Eles que representariam os instintos estão assustados observando os homens insensatos.
Para purgar seus pecados carnais a mulher atinge os órgãos sexuais, do marido e os seus. Cumprindo seu trágico destino, ela mutila seus órgãos genitais, toda a sua fonte de vida, força e prazer sexual. Reina o terror e a morte.
Lars Von Trier não precisaria recorrer àquelas ridículas cenas do homem matando o corvo e da raposinha falando: ”reina o caos”, significando que o Anticristo – que representa o mal – está ali e reina.
Enfim, tudo era produto de duas mentes doentias ou era apenas o simbolismo da existência do mal em toda a sua força apocalíptica? Lars estaria revelando o horror simbólico da existência do mal dentro de cada ser humano?
Não tema assistir ao filme de Lars Von Trier, não cairá nenhum pedaço de você. Se quiser, ainda poderá rir daquilo tudo, e estará inteiro quando o filme terminar. Vale também assistir às interpretações de Willem Dafoe e de Charlotte Gainsbourg, trágicos e verdadeiros.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
O CONTADOR DE HISTÓRIAS
Maria de Medeiros é Marguerit Duvas, a francesa de alma grande, muito grande. Quem me dera ser como ela. Seria uma benção para qualquer mulher parecer com a francesa, nem que fosse só um pouquinho. Maria de Medeiros está tão bem como a pedagoga que adota o menino Roberto, que não consigo imaginar a verdadeira francesa com outro visual. Que nem a vez, que vi o filme “Roma” de Fellini. Eu jurava que o diretor tinha encontrado a Anna Magnani por acaso, quando ela fala: “Va Fellini, va”. Mas não, para conseguir tanta naturalidade tem que ser muito boa atriz. No caso, Maria de Medeiros, como Magnani está estupenda. E Luiz Villaça, o diretor faz jus às nossas expectativas com seu belo filme.
Os atores que vivem as diferentes idades de Roberto também estão ótimos. Particularmente irresistível é ver o garotinho de arma na mão (Marco Antonio) assaltando com a maior cara de anjo. E a decepção do menino quando é preso! Roberto (Paulo Henrique) aos 13 anos também demonstra no olhar todo o seu sofrimento, mas revela a sua alegria e o seu jeito de menino especial.
Roberto representa a infância roubada, e roubada de quantas crianças no Brasil? Todos nós sabemos disso. Mas, quem sabe, isoladamente pensamos que é inútil qualquer atitude, tamanho é o problema? E vem Marguerit Duvas para nos sacudir.
Pergunto-me se a mãe era ingênua a ponto de achar que o filho estaria melhor na Febem, que ao seu lado? Em minha maneira de ver as coisas sempre pensei que só menor infrator ia parar na Febem. E também nunca pensei que passasse pela cabeça de qualquer mãe, por mais simplória que fosse, a idéia tola de achar que seu filho pudesse virar doutor, se fosse para a Febem. Aliás, Febem é uma palavra tão mal vista e rejeitada por todos que, se restou alguma coisa teve que mudar de nome.
Os funcionários desses órgãos públicos sempre foram despreparados. O filme de Luiz Villaça mostra muito bem isso. Vocês notaram a insensibilidade da psicóloga, quando a mãe deixa o filho sem sequer poder despedir-se? E ela somente pareceu ter algum sentimento quando ficou amiga de Marguerit... A própria psicóloga admitia a gravidade da situação. Viviam em clima de guerra.
Pode não ser verdadeira a minha percepção. Em órgãos públicos de assistência social existem muitos ex-padres e ex-freiras. Como se sua atividade assistencialista pudesse aliviá-los do complexo de culpa – do imaginário deles – por terem abandonado a vida religiosa em favor da vida laica. Nem por isso são bons profissionais. A maioria é medíocre. E a Febem morreu disso também. Luiz Villaça não aborda esse aspecto, que até poderia enriquecer o filme.
Se Marguerit era uma mulher iluminada, Roberto sempre foi um menino especial. E um menino extremamente corajoso. Quando vemos o verdadeiro Roberto, contando suas histórias como ninguém. Entendemos porque o jovem Roberto era tão esperto.
A caracterização da pedagoga é para sentirmos o quanto ela era fora do comum. Marguerit é rodeada por cores belíssimas, muitos azuis iluminados como ela, que se apresentava: “Nasci em Marselha, na França, gosto da cor azul, sou pedagoga, meu signo é câncer, gosto do verão, gosto mais do dia que da noite e gosto de andar de bicicleta”. Generosa, iluminava tudo que tocava. O pão com que alimenta Roberto nunca me pareceu tão bonito e gostoso. O menino fala que nunca tinha visto tanta comida.
Impressiona em Marguerit a capacidade de amar e de ser mãe adotiva. Seu trabalho social não deixou de ser uma adoção. Daquelas mães que não precisam adotar crianças enquanto elas são pequenas. Daquelas mães que não escolhem a cor, nem a idade do filho adotivo. Daquelas mães que tem coragem de adotar uma criança de 13 anos, que perdeu as contas do número de vezes, que fugiu da Febem.
Marguerit faz Roberto entender que ele não é mais aquele menino da Febem, que teme tudo na vida. Ao que ele retruca: “Mas continuo negro”. Ela dá a melhor resposta: “Deus coloriu os negros e esqueceu a nós, brancos, por isso nem podemos tomar sol”.
Emocionamo-nos e choramos quanto Roberto perde o medo e passa muitas vezes pela revista policial na entrada do jogo de futebol. Para ele aquilo foi pura alegria. Ali o menino adolescente entendeu que era um ser humano livre e um cidadão, embora ainda fosse criança. Sem pieguices podemos afirmar que Marguerit venceu pelo amor.
Para nós resta o sonho de um dia poder ouvir uma história contada por Roberto Carlos Ramos, o menino que virou contador de histórias, tão verdadeiras como a sua, como ele mesmo afirmava.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
CASAMENTO SILENCIOSO
Os ingredientes do humor grosso estão presentes desde o início. Lembram Dino Risi, em seus filmes com Vittorio Gassman. Cineastas e jornalistas fazem um filme. No local das filmagens existiu uma pequena cidade, que foi destruída pelos comunistas. A povoação foi substituída por uma fábrica. Os capitalistas atualmente desejam construir outra cidade para turismo. Visões estranhas perturbam alguns membros do grupo. Ao longe surgem mulheres de preto com velas na mão. De repente aparece uma jovem vestida de branco.
Em flash back temos a visão de paraíso da cidadezinha. Um campo amarelo e dourado encobre o casal apaixonado. Dos dois, ouvimos o grito de prazer. Com em toda comédia o anão risonho e a criança estão sempre presentes espionando e rindo. O grito do pai traz a jovem de volta à realidade.
Os personagens são caracterizados com truculência e vulgaridade. O pai da noiva é um dos mais exagerados nos modos rudes, querendo bater na mulher e na filha, mas estas o trazem com rédeas curtas e não se intimidam. Como todo pai, no fundo o que ele quer é que a filha case. Quando o noivo aceita casar tudo vira em festa.
Fundamentalmente o filme celebra a vulgaridade das classes proletárias romenas. A autenticidade e a falta de modos e educação dos pobres. Não é tão corrosivo quanto o Ettore Scola de “Bruti, Sporchi i Cativi”, mas se aproxima.
O diretor Horatio Malaele critica o passado comunista da Romênia sob a ditadura de Nicolae Ceausescu. Malaele dá uma trégua ao espectador até a metade do filme. Em plena festa de casamento, surgem os oficiais do governo comunista - naquele aclive do terreno filmado repetidas vezes –, ameaçadores, com seus uniformes de capotes compridos. A festa pára, todos ficam em silêncio, sabemos que a brincadeira terminou.
Mesmo assim Malaele mostra a resistência do povo romeno. Os soldados avisaram, estavam proibidos os casamentos ou qualquer tipo de festa, Stalin tinha morrido na noite anterior. Inconformado o pai da noiva transfere a festa para o porão e a comemoração passa a transcorrer em silêncio, como no cinema mudo. Simbolicamente representando o silêncio dos romenos, amordaçados pela ditadura comunista.
Afinal não é todo dia que a nossa filha casa não é mesmo? Em meio a brincadeiras, a platéia se diverte com as piadas, principalmente com o festival de peidos de um dos convidados. Tudo é fixação no escatológico e no grotesco.
Repentinamente o estrondo da parede. Lembra “Ensaio de Orquestra”, de Fellini, quando uma esfera enorme derruba a parede da sala onde a orquestra ensaia. Só que Fellini é Fellini e Horatio Malaele não pode esquecer a tragédia que se abalou sobre seu país. Entendemos tudo, os tanques invadindo a festa, as mulheres de preto, a noiva...
Não deixe de assistir a Casamento Silencioso, você vai adorar e amar o novo diretor Horatio Malaele.
domingo, 20 de setembro de 2009
A ONDA
O alerta é para todos, os regimes autocráticos e autoritários podem surgir num estalar de dedos, com atitudes aparentemente inocentes, que podem partir de qualquer um de nós, mas cuja repercussão é impensável e assustadora.
Para explicar e exemplificar para seus alunos o que é autocracia, o professor Rainer Wegner (Jurgen Vogel) faz uma espécie de laboratório com a turma, tentando mostrar como é possível surgir um movimento autocrático, nazista ou fascista até em sala de aula.
O nazismo continua sendo o grande fantasma que assombra e aterra o imaginário dos alemães. Os jovens preocupam-se com movimentos neonazistas e desejam sacudir a culpa por algo que não fizeram. Criminosas seriam as gerações anteriores. Não percebem que as atitudes fascistas estão muito mais próximas do que possam imaginar.
Para fazer surgir o movimento fascista, o professor transforma sua turma em um grupo unido, liderado por ele próprio, com um lema, baseado no nacionalismo, na obediência, em uma concepção ética de uma vida séria, austera e religiosa, que acredita que o homem deve obedecer a uma lei superior, que tem uma Vontade objetiva, que transcende o indivíduo e o transforma em membro de uma sociedade espiritual.
Os alunos demonstraram ser obedientes desde o início, muito mais obedientes do que os alunos de salas de aula brasileiras. Mas alunos com desvios de comportamento, com problemas de agressividade e sérios problemas familiares também foram mostrados desde o início.
Alguns tinham um padrão de conduta anti-social, agressiva e desafiadora, que aflorou com a formação do grupo a que os estudantes denominaram Onda. Um dos alunos, o mais problemático estava envolvido com drogas, colocava-se em oposição a outras gangues, desejava intrometer-se na vida particular do professor, e era o único a andar armado.
A Onda mostra que isoladamente os estudantes eram frágeis, mas o grupo dissolvia as responsabilidades individuais, e o uniforme dissolvia as desigualdades e as diferenças sociais. Assim em poucos dias o monstro estava formado. A saudação com pequenas diferenças era saudação nazista, interessava a vontade do grupo acima de interesses individuais, não importando os meios utilizados.
Quando a situação se agrava e fica incontrolável não há como frear o grupo, não há como mostrar que tudo deveria ser somente uma encenação.
O professor, vítima de si mesmo, descobre dentro de si o fascista latente, o grande agente de um sistema político nacionalista e antidemocrático. Pasmo, descobre que a semente do nazismo estava dentro dele, o monstro era ele próprio, que olha aterrorizado para a câmera. Essa é a cena mais chocante do filme, a descoberta de si mesmo.
A Onda é dirigido por Dennis Ganzel.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
FALANDO GREGO
O filme passa de leve pela crítica à forma como os turistas são explorados e enganados nos países estrangeiros. E também critica as pessoas que fazem esse tipo de turismo, estereótipos, criaturas mal educadas, grosseiras, sem cultura, consumistas de bugigangas e falsas quinquilharias que levam como lembrança para seus países de origem. Se a Grécia foi o berço da civilização, hoje mais parece um país subdesenvolvido.
Demitida de seu emprego anterior, Georgia tenta uma vaga como professora de História em uma universidade americana. Enquanto aguarda a resposta trabalha como guia em uma agência de turismo. Recebe os piores grupos porque é boicotada pela empregadora – uma senhora grega para lá de brega, com blusa de oncinha – e pelo colega Nicos. Ambos a desejam fora da competição no ambiente de trabalho. Georgia também recebe as piores avaliações dos turistas.
Seu grupo não poderia ser pior, parecem uns trogloditas e beberrões. Richard Dreyfus faz Irv Gordon, o tipo “engraçadinho”, que Georgia detesta. Está sempre fazendo piadinhas. As mulheres divorciadas parecem duas caçadoras. A senhora com o marido quase inválido não é nada simpática. Ainda por cima tem o péssimo hábito de roubar. O casal que vive brigando, só causa transtornos com sua filha adolescente e mal humorada. A garota não ri nunca e só quer ir à praia. Fazer turismo na Grécia para aprender um pouco sobre cultura, história e arquitetura gregas jamais passaria pela cabeça daqueles turistas.
Assim, Georgia está com a vida em ruínas, e revela candidamente que não faz sexo há séculos, quando pensa que a seu lado ninguém entende inglês.
Richard Dreyfus o “engraçadinho” revela o seu outro lado. Transforma-se no alter ego de Georgia e do grupo. É ele que percebe que o motorista (Alexis Georgoulis) mal humorado perde a direção do ônibus e a própria cabeça quando vê Georgia soltando o seu lado feminino e sedutor. Kakas, o motorista era homem das cavernas só na aparência. Aliás, a guia seguia uma sugestão do próprio Dreyfus, não ser tão durona, ter mais jogo de cintura e introduzir a sedução para cativar seu grupo de tapados.
É Dreyfus que faz a cabeça de todos. Com a ajuda dele, Georgia consegue com que o grupo dê uma guinada em seu comportamento. Como um oráculo, em Delfos, na base da brincadeira Dreyfus faz com que cada um possa entender melhor a si mesmo e dar e melhor de si para o outro. Até a senhora larapia, quando resolve presentear Georgia o faz com um objeto que tem nota fiscal e tudo.
Dreyfus fica em alerta, quando Georgia erra o alvo em busca da alma gêmea. Aproxima-se de um dos turistas e não do motorista. Nem a platéia nem ninguém aguenta, o papo idiota do cara falando em seus hábitos de colecionador de melado! Todos enchem a cara, desde o barman! É uma das piadas mais engraçadas do filme. A outra é o sucesso que o motorista faz com as mulheres quando aparece na praia, lindo, bronzeado e musculoso em seu calção de banho. Assim, se Georgia sai em busca do seu kefi, todos os turistas do grupo também revelam o seu outro lado. Não são tão trogloditas assim...
O filme vale a pena se visto ainda mais quando entramos junto com eles em Delfos e depois na Acrópole! Oh Deus, nos abençoe, o Partenon e o Erecteu, templo das cariátides estão diante de nós!