domingo, 22 de julho de 2012

A velha dos fundos

Pablo Meza é o diretor de "La vieja de atrás". Mais um filme sobre pessoas engolidas pela grande metrópole. Desta vez , uma viúva e um estudante de medicina. Duas pessoas vivem solitárias e anônimas em Buenos Aires. Poderia ser Porto Alegre, ou pior ainda,  São Paulo. O tema virou lugar comum. Ninguém se impressiona. Somos em grande parte responsáveis por tudo ou quase tudo que nos acontece. E de nada vale jogar a culpa nos outros. A pobre Rosa, esses seriam os têrmos que minha mãe teria para se referir à senhora Rosa (Adriana Aizemberg) que vive isolada num apartamentinho escuro, num prédio mais escuro ainda,  em Buenos Aires. Pablo Meza estaria tentanto provocar no espectador sentimentos de miserabilismo em relação aos personagens? Deveríamos sentir compaixão pela pobre senhora? igual à mãe da Cenira, que foi atropela quando inadvertivamente atravessou a rua? Pudera! sempre olhando para baixo e com os cabelos caídos sobre os olhos. O que mais poderia ter acontecido? Essa poderia ser uma outra versão de Pablo Meza.

O caso é que Rosa vive aquela rotina de mediocridade. Levanta-se, toma um café muito pobre, com bolachas duras e cheirando a mofo, arruma os cabelos, procura o brinco perdido e sai de casa. Até aí nenhuma novidade. As senhoras idosas sempre têm alguma coisa perdida. E juram que foram roubadas... Mas isso também acontece com as jovenzinhas... Bate a porta da rua, vê o vizinho, um jovem, caladão, estudante de medicina, que veio do interior. As cenas se repetem diariamente. Um cuida o outro. E fazem questão de pegar o elevador juntos. Em prédios de idosas, todas sabem da vida de todo o mundo. Assim, Rosa sabe que o jovem está em apuros financeiros e que deve mais de três meses de aluguel.

Marcelo (Martín Piroyansky), o vizinho, fragilizado, sofredor do interior - veio de La Pampa-, tem grandes dificuldades para adaptar-se à vida na grande cidade. O pior é a falta de apoio da família que o quer de volta para ajudar nos trabalhos do campo. Assim, valorizar que o filho conseguiu entrar para a Faculdade de Medicina parece que não passa pela cabeça dos pais de Marcelo. Nem ele próprio se valoriza, eis o xis da questão.  

E se Rosa vive numa condição de solidão, deve ter contribuído muito para isso. Pablo Meza mostra o  insuportável e o difícil que é viver como Rosa e Marcelo, morar num bairro pobre de Buenos Aires. Descem do elevador, ao som de insuportáveis ruídos e solavancos. Quando o elevador tranca, a cena é lenta. Fica tudo escuro, não se vê nada. E a cena se repete muitas e cansativas vezes. Bem como o ruído ensurdecedor da rua, para onde os dois se dirigem. Ele para distribuir panfletos de propaganda de garotas de programa. Ela para ficar parada numa esquina, sem atravessar a rua, sem fazer nada. Cuida do vendedor de flores? Tem alguma esperança de conquistá-lo?

Em uma coisa Rosa é trangressora. Sem pensar muito, convida Marcelo para morar com ela. Rosa aqui foi adoravelmenmte transgressora. Mas não ofereceu nada a Marcelo. A única condição é a mais difícil de cumprir, e  ela exige: Marcelo deve conversar com ela! Rosa quer alguém para conversar! E compra essa conversa. E exige essa conversa. E Marcelo que esta na pior não tem muito o que dizer para Rosa. Pois, se nem uma namorada o pobre menino consegue?

Assim, Pablo Meza fala  dessa limitação, dessa  falta de alguém com quem conversar, da incomunicabilidade, das dificuldades de comunicação dos dias de hoje e da solidão implacável que atinge qualquer idade. Enfim, Rosa poderia voltar a estudar, buscar um grupo de terceira idade para ser infantilizada..., adotar animaizinhos, falar com eles nem que fosse em outra língua, em francês por exemplo. Assim, ela poderia divertir-se consigo mesma e desistir de querer comprar uma conversa de quem não quer falar com ela... E Marcelo? Oh Marcelo procura uma psicóloga. Fala de tuas angústias para alguém, menos para D. Rosa. Com ela só vais conseguir café aguado com bolachas duras...


Violeta foi para o céu

Ándres Wood, o diretor de Machuca, nos conta a vida de Violeta Parra, a cantora e compositora chilena. Desde o início Ándres nos mostra a tragédia, que fingimos não entender. O enorme olho que toma conta da tela é o olho de Violeta, mas é também o olho da galinha, do animal irracional e submisso vítima do gavião, "el gavilán". Violeta repete que "el gavilán" é devorador como o capitalismo. O povo latino-americano é também a grande vítima "d' el gavilán" . Se a música de Violeta Parra tem um enorme significado para os chilenos. Para aqueles que se sentem como eu, muito latino-americanos, o significado não é menor. Violeta retrata com perfeição a vida de uma mulher muito adiante de seu tempo. Desde criança teve sua vida dedicada à música. Num clima bem pesado de bailes e muita cachaça, até pelos  problemas de alcoolismo do pai. Porque Violeta nos impressiona tanto? Talvez por suas raízes campesinas. Algo de muito verdadeiro que transborda em suas canções e que não tem a menor relação com o tradicionalismo gaúcho inventado por Barbosa Lessa. Eu vivi na campanha quando criança, nunca tinha visto essa fantasia do gaúcho e das tradições, tão falsa e sem conteúdo como nos dias de hoje. Esses gaúchos talvez nem saibam quem foi Violeta Parra, em cujo exemplo poderiam se mirar. Entre 1969-1973 (antes do golpe de Pinochet), viajei (com Luiz) ao Uruguai, Chile e Argentina para ir ao cinema e comprar os discos com música de Violeta Parra (los Parra de Chile, Isabel e Ángel Parra) e outros como Daniel Viglietti, Eduardo Falu, Los Jairas e Quilapayun. De Alfredo Zitarrosa lembro e gosto de "Pa'l que se vá"

"No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Cierto que hay muchas cosas
que se pueden olvidar
pero algunas son olvidos
y otras son cosas nomás.
No eches en la maleta
lo que no vayas a usar
son más largos los caminos
pa’l que va carga’o de más.
Ahura que sos mocito
y ya pitás como el que más
no cambiés nunca de trillo
aunque no tengas pa’ fumar.
Y si sentís tristeza
cuando mires para atrás
no te olvides que el camino
es pa’l que viene y pa’l que va.

No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Cuanti más lejos te vayas

Más te tenes que acordar"  e onde ele canta que "son más largos los caminos pa'l que va cargado demás"



Quem sabe esse "cargado"  pode ser também no sentido psicológico. Por isso mesmo estou tentando esvaziar as malas da minha vida. Para seguir em frente e "adelante"!  Eu me identificava com essa milonga que falava da tristeza do que se vai em busca de novos caminhos. Fomos ao Chile e íamos assistir a um show de Isabel Parra, que foi cancelado. De resto lembro do gás lacrimogênio. Credo eu nem sabia o que era aquilo. Lembro dos garçons oferecendo dólar no elevador, dos taxistas querendo a queda de Allende, e de nada mais . Somente aceitei voltar ao Chile muito mais de 30 anos depois. Fiz um móvel especial para guardar esses bolachões que foram a parte que escolhi na divisão de bens do casal. Assim, ainda tenho o disco dos companheiros de Violeta, Los Jairas, o grupo boliviano formado por Ernesto Cavour, Edgard Joffré, Julio Godoy e Gilbert Favre, o amante de Violeta Parra e por quem ela cometeu suicídio.

Violeta era uma artista que tinha consciência de seu talento e de sua capacidade. De fato era um gênio superior aos comuns mortais. Sentia necessidade de dedicar-se à sua vida artística, nem que isso significasse sacrificar a vida de seus filhos e a sua,como mãe. E, quando no Louvre  afirma que Gilbert era apenas o homem que fazia a moldura de seus quadros, dizia a mais  pura verdade. A artista era ela, Violeta e não o louro e europeu Gilbert. Quem conseguiu expor sua obra no Louvre, foi Violeta e não seu amante Gilbert. Mesmo assim, foi vítima da xenofobia dos franceses que adoram mostrar os latinos como o elefante no circo, a última atração! E o chefe de cerimônia ordenou que Violeta fosse para a cozinha comer com os serviçais. Muitobem,  fez a corajosa Violeta que o mandou " à la gran puta". O genial em Violeta é a sua evolução como artista e intérprete. Pesquisava as letras de suas músicas através de relatos de idosos, que conheciam as letras de versos que eram passados oralmente , de geração em geração. Você ouviu falar de algum artista que tivesse feito isso um dia? Eu nunca ouvi falar de ninguém. Essa é uma das razões da beleza e autenticidade única de Violeta que pode ser considerada a maior artista da América Latina. E que docemente relembramos quando termina o filme e canta " Gracias a la vida".

"Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida"

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Guerra dos Botões

"Guerra dos Botões" fala de pureza, maldade e principalmente ingenuidade das crianças. O diretor  Yann Samuell  retrata os anos 60. Mesmo assim, a história possui um humor excessivamente ingênuo e simplório, assim meio chiquititas mexicanas. Como se Chaves tivesse baixado no set de filmagem de "Guerra dos Botões". Até pode-se afirmar que a maneira como as crianças são mostradas em sua guerra contra a aldeia vizinha tem uma aparência ou pretensão de elegância que foge ao que convencionalmente é de bom gosto. Mesmo nos anos 60, a roupinha do menorzinho era muito jeca, de chorar, embora o menino fosse uma fofura. É mais ou menos com se França e México fossem semelhantes na maneira de tratar e de ver as crianças.

A "Guerra dos Botões"  é liderada por Lebrac (Vincent Bres), o menino que perdeu o pai e precisa cuidar da mãe e das duas irmãzinhas. Aliás, as duas parecem bonecas que passam pelo filme como pano de fundo.  Em 1960 a aldeia de Longeverne tem como rival, Verlans. E a guerra não é apenas das crianças, mas de todos. Os dois professores se bicam para deleite dos espectadores. Porém, tudo não passa de palavrões com os quais eles enchem a boca, tipo cabeça de bagre ou coça-saco e ainda frisam para os que não sabem escrever, que coça-saco se escreve  com ç (cedilha) .  Uma coisa sim, temos que dar mão à palmatória, os franceses preocupam-se com um verdadeiro ensino e desde cedo as crianças querem escrever corretamente. Lebrac, aos 13 anos - mais ou menos- sabia muito mais do que muito  brasileiro que está na universidade. Aliás pesquisas foram realizadas no Brasil e confirmam que 38% dos universitários tem sérios problemas para ler, escrever e compreender um texto. Muita gente entra na universidade sem estar devidamente alfabetizada... E as professoras do Bernardino não estão mais aqui para ensinar essa gente a ler.

Assim a "Guerra dos Botões" liderada por Lebrac chega a um ponto de violência em que os guerreiros lutam com bastões para machucar de verdade. Mas na hora da violência para valer, ninguém sai muito ferido. A moral da história  destaca Merlin - interpretado por Eric Elmosnino- como o  verdadeiro professor que até substitui um pai ausente. Protege e incentiva seu aluno a crescer, amadurecer e partir para novas conquistas. O filme mostra o drama de Lebrac, adolescente revoltado,  deseja liberdade e  independência, mas ainda é uma criança. O processo de amadurecimento de Lebrac,  a nova relação que consegue estabelecer com a mãe,   o professor e a superação de suas  limitações como adolescente são os pontos fortes do filme. Eric Elmosnino está muito bem como o professor Merlin. Lembram-se dele em Serge Gainsburg, vie heroyque?

domingo, 15 de julho de 2012

O Espetacular Homem Aranha

Acredite, fui preparada para não gostar do novo Homem-Aranha. Eu achava que o Homem-Aranha, Tobey Maguire estava tão talhado para o papel, que qualquer substituição estaria destinada ao fracasso. Eis a surpresa, o ator Andrew Garfield é bonitão e interessante. Nas fotos, nem tanto, o bocão parece meio exagerado, na tela impressiona.
Os tios de  Peter Parker (Andrew Garfield) , Ben ( Martin Sheen) e May (Sally Field) transformam-se em seus pais, após o desaparecimento inexplicável dos verdadeiros. O "Espetacular Homem-Aranha" conta com estes dois grandes atores, Sally Field e Martin Sheen, mas a velha tia May é imbatível.
Peter leva uma vida de universitário bem complicada, enfim vida de universitário não é fácil, com tanta moça para namorar e colegas competidores. Mas Peter já está apaixonado por Gwen Stacy (Emma Stone). Os problemas se complicam quando ele encontra uma pasta com as pesquisas de seu pai para misturar espécies e tornar os seres humanos perfeitos,  capazes de vencer qualquer doença, e como os lagartos capazes de regenerar órgãos  amputados ou perdidos, ou que não nasceram por alguma razão.
O filme se desenvolve aos poucos, inicia com o drama de Peter, para concentrar-se nas capacidades espetaculares que adquire ao transformar-se no Homem-Aranha. Como em todos os filmes de heróis, Peter apaixona-se pela mocinha, mas  é um João-Ninguém. Quando adquire seus poderes fantástiscos, precisa, aos poucos, experimentar as novas capacidades, vencendo os que o humilharam quando era um  simples mortal. Alguns obstáculos permanecem, como a desconfiança do pai da moça, justo o policial que emite uma ordem de prisão contra o Homem - Aranha! Porém, o pior  inimigo é o Dr. Connors da Oscorp, que ao tentar regenar o braço amputado transforma-se no Sr. Lagarto.
O clímax do filme é muito bonito e genial, Peter, o Homem-aranha voa na tela, amarrado a mil fios de aranha. E a emoção é maior quando recebe o auxílio de  seres humanos normais, que levantam mil e uma gruas para o Homem-Aranha poder saltar e salvar a humanidade. Essa cenas são belíssimas e mostram um cenário futurista sem céu, pressago, sem sol, somente as janelas iluminadas contra um fundo escuro e opressor da cidade do futuro.
No final, a pose do Homem Aranha, como no cartaz do filme apoiado sobre um dos joelhos, pronto para novas aventuras e por isso mesmo impedido de entregar-se ao amor de sua vida, a bela loura Stacy. Vale a pena ver o Homem-Aranha. Acho que não era uma sessão para crianças, não vi nenhuma desta vez!!! Onde estavam???

Para Roma com Amor

Tudo começa ao som de "Volare",
"Volare oh, oh
cantare oh, oh
nel blu dipinto di blu
felice di stare lassù
e volavo, volavo felice più in alto del sole
ed ancora più su
mentre il mondo pian piano spariva lontano laggiù
una musica dolce suonava soltanto per me"

Não sei como, mas conheço decor a letra dessa música de  Domenico Modugno. E assim de cara me apaixonei pelo filme de Woody Allen. "Para Roma com Amor" é o melhor filme do diretor. Pode ser até porque, quando gosto de alguma coisa, lembro  somente esse último fato que me impressionou. Não sei bem porque, lembro agora que sempre achei impressionante a capacidade que temos para esquecer a dor física. Quando fiz minha cirurgia cardíaca sentia dores horríveis. Esqueci tudo, não consigo lembrar a dor. Melhor assim. Tudo isso para dizer que no momento, dos filmes de Woody Allen, só lembro de "Para Roma com Amor". E me atrevo a dizer,  parece que Woody Allen sabe que existem pessoas como a Doris Maria, e fez este filme para elas.

Para começar Roma! Existe cidade mais linda e impressionante na face da terra? Tudo aquilo que vi rapidinho e prometi para mim mesma voltar, um  dia, Piazza di Spagna, Piazza del  Poppolo, Fontana di Trevi, ruelas de Roma, enfim um cenário perfeito para Woody Allen.

Das quatro histórias, a  que mostra o casal do interior,  recém chegado à Roma, é a melhor. Adivinhem, justamente ali está a homenagem a Fellini. É a mesma história de "Il Sceicco Bianco" (Abismo  de um Sonho), o maravilhosos filme de Fellini, que assisti em Dom Pedrito - bons tempos - com minha irmã. Saímos rindo do cinema, perplexas com a personagem de Brunela Bovo, tão simplória, que não conseguia sequer cometer suicídio! Corram à Livraria Cultura e comprem esse clássico de Fellini. Com Woody, a bobinha e simplória é Milly (Alessandra Mastronardi), o marido que casou virgem é Antonio (Alessandro Trossardi). Com Fellini, ela é Vanda (Brunella Bovo) que se encanta com o canastrão  e mulherengo astro de fotonovelas, "o xeique", interpretado por Alberto Sordi. A cena do "clown" Sordi num balanço, no alto de uma árvore, é um dos grandes momentos de Fellini. Atrevo-me a dizer, foi pena que Woody Allen não colocou o mesmo complexo de culpa, de Vanda, em  Milly. Nem fez com que com ela tentasse o suicídio numa pocinha de lama! Amei aquelas cenas! Porém a Milly do século XXI, não está nem aí para sentimentos de culpa, nem é tão bobinha. Obedecendo ao ditado "a ocasião faz o ladrão" Milly transa com  este último, afinal... já estavam na cama... O marido Antonio, temeroso e inseguro é interpretado por Alessandro Tiberi. Precisa tomar aulas de sexo com a experiente Penélope Cruz. A atriz de Almodóvar está ótima como Milly Anna. Acrescentou o Milly quando precisou substituir a esposa sumida. Adivinhem onde está Ornela Muti? Inacreditável é Pia Fusari, uma das atrizes, atrás de quem Milly corre atrás.

Id, ego e super ego invariavelmente aparecem nos filmes de Woody Allen, ao que parece ele, de longa data,  também é adepto da terapia. Desta vez, John (Alec Baldwin) é o super ego do próprio Woody, quem sabe... Fica falando que nem o Yoda de "Guerra nas Estrelas", o mestre mais poderoso do universo. Jesse Eisenberg é Jack, de certa forma, é o próprio arquiteto na juventude. Por isso mesmo John  fica alerta, dando conselhos e analisando psicologicamente o comportamento de Jack e da maluquinha Monica (Ellen Page).

Agora Lucinha, me diz uma coisa, reconheceste alguém baixinho, cabelhos grisalhos, usando óculos, que ama o cinema e não quer ouvir falar em aposentadoria? Não é que  é o próprio Jerry? Interpretado por Woody Allen? Em seus filmes quase sempre é casado com uma mulher madura que conhece todas qualidades e defeitos do marido e que tem a maior paciência com ele. Desta vez a senhora Phyllis é a encantadora Judy Davis.

Jerry vai visitar a filha em Roma. Descobre por acaso um talento que só sabe cantar no banheiro. É o pai do namorado de sua filha. Gênio, Jerry cria um espetáculo para o agente funerário transformar-se em  tenor,  que continua cantando no banheiro! Quase pega a gripe A, he! he! he!

Para finalizar e deixar as Doris deste mundo felizes, Monica a jovem interpretada por Ellen Page, quando quer impressionar  John, cita uma frase de cada poeta.  E ela cita Rainer Maria Rilke... Oh! foi demais para mim que até dei o nome de Rilke para o meu cachorrinho predileto!!! E eu, que sei uma única frase de um único poeta, Rilke!

"Oh saudades dos lugares que não foram bastante amados na hora passageira, quem me dera devolver-lhes o gesto esquecido, a ação suplementar..."

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Último Dançarino de Mao

A história do "Último Dançarino de Mao" é verdadeira. Li Cunxin é o menino levado de sua aldeia na província chinesa de Qingdao, aos 11 anos para aprender a dançar em uma escola de balé de Madame Mao. Em 1979, Li desembarca em Houston, para um intercâmbio cultural. Nos Estados Unidos fica sob os cuidados de Ben Stevenson (Bruce Greenwood), diretor artístico da Companhia de Balé Houston. Bruce Greenwood está muito bem, representando com naturalidade a forma como um homem dedicado à dança - homossexual - se movimenta, caminha, se veste, fala e se articula. Uma interpretação perfeita, sem trejeitos ou afetações. Li Cunxin vê um outro mundo, apaixona-se pela América e nega-se a voltar para seu país. A situação é compreensível. Quando o cônsul chinês fica sabendo, sequestra Li, na própria embaixada, criando uma crise diplomática. Contra as expectativas de Ben, um homem íntegro e correto, Li insiste em não voltar. Uma das razões seria seu casamento com uma jovem americana. "O Último Dançarino de Mao" não chega a atingir um grande nível de qualidade, até mesmo por ser uma visão de americano sobre um país culturalmente diferente. A visão dos americanos sobre a China é linear, elementar. Os chineses são vistos como primários e simplórios. Que o governo chinês seja autoritário, todos concordam , mas que sejam uns bobos, idiotas e simplórios, não pode ser. Afinal foi a própria China que produziu um talento como Li. A questão merece reflexão... Se o filme apela para nossos sentimentos! Ou para uma certa pieguice, concordamos em nos emocionar e chorar um pouquinho. Mas a personagem que se destaca, embora não esteja entre as principais, é a mãe de Li. Quando os militares lhe dão a notícia que seu sexto filho não poderá voltar à China porque desertou, ela não aceita as acusações. Indignada, revolta-se contra um regime autoritário que roubou-lhe o filho, roubou-lhe a infância, tirou-o de seus braços, afastou-o do lar, privou-o do convívio familiar e ainda faz acusações! Ela grita: "vocês levaram meu filho quando ele tinha 11 anos. Tragam-no de volta! Devolvam meu filho!" Essa cena e a do reencontro com Li na grande apresentação no teatro valem o filme. Você pode emocionar-se com o dançarino, com a perfeição de sua arte, e não esqueça que para Li, o grande modelo era Mikhail Baryshnikov. Mas, que nem eu, você poderá emocionar-se com aquela adorável senhora chinesa, a mãe de Li.

 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Prometheu

Ridley Scott, o realizador de "Prometheu" faz uma síntese dos filmes de ficção científica e terror. O diretor afirma que não gostava das cenas de Alien, 1979, sua primeira criação do verdadeiro monstro. Se antes Alien assustava até porque não era visto claramente pelo espectador, era insinuado, em Prometheu, o terror nasce e cresce às claras. Ridley, em entrevista a Luiz Carlos Merten (Zero Hora, 18-06-12), diz que o filme tem de tudo. Desde indagações filosóficas sobre a origem e o futuro da humanidade até  hipóteses de Eric Von Danicken sobre os deuses astronautas. De fato, ninguém soube explicar até hoje, como foi construída a fortaleza de Sakssahuaman em Cuzco. E aí temos matéria de sobra para indagações e especulações. Prometheu é o herói da mitologia grega, que roubou o fogo de Zeus para dá-lo aos homens. Foi punido por ele. Os homens, em sua arrogância e prepotência, ambicionando poderes ilimitados sobre o universo estariam se comportando como Prometheu. Diante de tantos questionamentos, à maneira de Stanley Kubrick em "2001, Uma Odisséia no Espaço", Ridley Scott propõe uma reflexão filosófica sobre a origem e a condição material da humanidade, sobre a efemeridade da vida. Kubrick resolveu melhor os questionamentos sobre vida e morte. Um de seus personagens, o homem no fim da vida, retorna com Ridley Scott, em busca de uma resposta para o segredo da vida eterna. A arqueóloga Elisabeth Shaw, em seu trabalho de pesquisa científica, identifica sinais que remetem à explicações sobre a origem da vida. Encontra o desconhecido e mais indagações. Como no primeiro Alien, as mulheres sãos as heroínas, Sigourney Weaver e Naomi Rapace. Ambas estão excelentes, embora Sigourney ainda supere Naomi. Mesmo assim, em "Prometheu", Naomi convence. Foi escolhida pelo mestre porque ele desejava uma heroína que transparecesse força e delicadeza ao mesmo tempo, sem perder a ternura jamais. O robô interpretado por Michael Fassbender é a peça estratégica num jogo de forças e destruição. Louro frio e de olhos azuis, tem o mesmo olhar distante do astronauta David, de Kubrick. Aliás, em "Prometheu" seu nome também é David, o mesmo do astronauta. Em " 2001..." , o Al 9000 é a máquina que se revolta contra o homem. Em "Prometheu", é  o robô, a não criatura, criada à imagem e semelhança de seu criador. David quebra seu compromisso com a humanidade. Quebra todas regras estabelecidas por Isac Asimov sobre o conceito de comportamento de um robô: - "Um robô nunca fará mal ao ser humano". Da mesma forma que Al 9000, David pensa, sente inveja, deseja ser "o homem". Transgride e pretende eliminar seu criador. Em "Prometheu", as fontes de nossos medos ancestrais estão presentes. Alien representa o medo visceral do desconhecido e do grande início. David é tão maligno quanto ele. É o próprio o mal onipresente, que não deve ser ignorado ou menosprezado. Como a Dra. Elisabeth não percebe que o mal mora ao lado? O nascimento de Alien do ventre do homem espacial é uma inversão das funções ancestrais do homem-garanhão reprodutor. Scott é o visionário, um criador e um interpretador do mundo, que projeta nossas fantasias sobre o presente e o futuro. Sem a participação de H. R. Giger, o artista gráfico que cria o universo de Alien, o terror teria sido impossível. Os produtores julgavam que os desenhos de Giger eram obscenos. Talvez porque ao invés de cara, o centro do monstro seja fálico e masculino. O golpe final na vítima acontece quando o falus sai de dentro do Alien e entra na boca da vítima. Horror e humilhação é pouco se tentarmos imaginar o que o dominado estaria sentindo... Sem aceitar derrotas, a cientista parte para outros confins do universo. A descoberta é tão importante? Seria melhor para a humanidade não saber que os ancentrais que Elisabeth descobre possuem o mesmo DNA dos seres humanos?