quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Biutiful

"Biutiful" é a forma como os espanhóis pronunciam a palavra "bonito" em inglês, falada nos poucos momentos de doce convívio entre o pai (Javier Bardem) e seus filhos, no filme de mesmo nome, de Alejandro González Iñárritu. Javier Bardem, mais uma vez, está em papel desafiador. Ele deve gostar desses personagens homem-limite. Que eu lembre, o primeiro foi em "Mar Adentro". Representava um paraplégico que insistia pelo direito à eutanásia. Nesse filme, pareceu-me que a vida do doente não era tão ruim para ele desejar tanto a morte...

Depois Bardem transformou-se naquela criatura caricata dos irmãos Cohen, "Onde os Fracos Não Tem vez". Não gostei do filme, achei um exagero a matança gratuita e sem motivos. A caracterização do personagem pareceu-me "over", mancando, com um cabelo pagem, cobrindo o rosto e arma na mão com silenciador? Um psicopata no mínimo ridículo. A caracterização do personagem em "Biutiful" não é muito diferente. Notaram a postura de homem vencido? Qualquer psicólogo, ou psiquiatra desvendaria o personagem na hora. Ombros caídos, ao caminhar quase não dobra os joelhos e não levanta os pés, que permanecem colados ao solo. Os sapatos são tão retos que grudam o pobre homem no chão. Barba por fazer, pele brilhante e suada, sempre com a mesma jaqueta Adidas -notaram que todo mundo usa Adidas? No Brasil, traficantes, criminosos e o restante da população são clientes fiéis Adidas -, calças jeans, cabelo comprido e imundo, alguns fios brancos indicam que deve ter mais de quarenta anos. Em todo o caso é muito jovem para estar morrendo de câncer na próstata. Enfim... Cansativo não é?

Alexandro Inárritu parece ser adepto do ditado "desgraça pouca é bobagem!", veja-se seus filmes anteriores "21 gramas" e "Babel ". Bardem é o personagem trágico, homem vencido por antecipação. Não consegue ou não quer viver e trabalhar com dignidade. Vive no baixo mundo de Barcelona, na contravenção, agenciando trabalho indigno para grupos de chineses imigrantes, que não possuem documentação oficial.

Aceita - ninguém entende o porquê - a ex-mulher de volta, que o trai com o próprio irmão (dele). A ex, Marambra (Maricel Álvarez), é o tipo de mulher que justifica sua conduta irresponsável e malévola, com a justificativa de bipolaridade. Abandona os filhos e diz abertamente a Uxbal que precisa do prazer e das aventuras de prostituta. A negatividade da personagem faz qualquer um perder a paciência.

Assim como "Babel" mostrava a via crucis de Susan (Cate Blanchett) e "21 gramas" a de Paul (Sean Penn), "Biutiful" relata minuciosamente a decadência e o sofrimento de Uxbal. Alguns momentos, ou melhor muitos momentos são tão dolorosos que parece que o tempo pára. Como em algumas sinaleiras (semáforos para os paulistas) quando tenho a impressão que estou ali parada há meses.

E Uxbal nunca se importou em ir ao médico. Não sabia que para fazer exame de sangue é preciso estar em jejum? Se queria tanto cuidar dos filhos, únicas jóias em sua vida, no mínimo deveria cuidar da própria saúde, para evitar tanta dor e sofrimento. Assim, precisa preparar-se para a morte, sua amiga vidente o avisa sem rodeios. Nada parece fazer sentido. As atitudes impensadas, os erros e equívocos acumulam-se. Uxbal indiretamente contribui para morte dos imigrantes. Tudo dá em nada, sofrimento? arrependimento? ação policial ? Inárritu insiste no acaso, em acontecimentos trágicos, que acontecem como que por ordem do destino, pelo simples acaso ou, na desgraça como decorrência de uma ação impensada, equivocada, mas não intencional. Uxbal é vítima de si mesmo e do destino. E são esses acontecimentos desastrosos e anárquicos que exasperam o espectador.

Se existe uma única luz na vida do personagem são os filhos. As únicas vítimas são as crianças e continuariam a viver sem ele, apesar de tudo. Como afirma a vidente, a vida se encarregaria deles.

Vá ao cinema e prepare-se, para o lúgubre, para o sem esperança e para a escuridão. Justamente por isso, o filme possui cores escuras e carregadas, num contraste muito forte de luz e sombra.


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