segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Baarìa, a porta do vento

"Baarìa" ou Bagheria é uma comuna italiana. Fica na Província de Palermo, Sicília, possui 50.321 habitantes e é a cidade natal do diretor. Giuseppe Tornatore conta a história da Itália, faz a crítica do fascismo, da máfia e até do comunism0. O tom é de comédia. Tornatore diz coisas sérias, mas faz suas críticas em tom leve e de brincadeira. Acompanha a trajetória de Peppino Torrenuova, desde menino, sem aprofundar o interior do personagem. Assim todos os personagens interessam na narrativa, que busca captar o tempo e os acontecimentos que cristalizaram a história da pequena Baarìa. Através do conjunto dos personagens Tornatore mostra as mudanças e a passagem do tempo, em sua cidade natal e na vida de Peppino, o personagem principal.

Tornatore aprendeu com os mestres Fellini e Ettore Scola. Lembra os maneiristas dos séculos XVI e XVII, que sem superar o Renascimento, tentavam fazer de uma outra maneira, reelaborando os clássicos. Os mestres Fellini e Sccola chegaram à perfeição no cinema. Assim Tornatore imita suas maneiras buscando lapidar a sua arte cinematográfica. Dá a sua contribuição pessoal e tira partido dos melhores precedentes. Busca resultados notáveis, e talvez seja justamente isso o que incomoda os críticos.

Fellini em sua narrativa mostrava o mundo e os personagens como um grande circo. Aliás era o circo que o fascinava.Os personagens eram caricatos, uns ensadecidos, outros loucos mas todos nos emocionavam muito. Ettore Scola em " O baile" também reconstituía parte da história da França abrangendo muitas décadas. Em "O Jantar" desenrolava muitos dramas paralelos, muitos personagens e muitas vidas, reunidos em uma mesa de jantar. Era uma comédia dramática, que tecia a relação entre todos os personagens. Scola privilegia a política, bem como Tornatore. Mas ninguém vai superar a crítica da miséria que Scola faz em "Brutti, sporchi e cattivi" (Feios, sujos e malvados), bem como ninguém vai superar o Fellini de "Abismo de um sonho", um dos filmes de minha vida.

Assim "Baarìa" , bem como "Cinema Paradiso", nos provocam aquela sensação da ilusão do já visto. Coisas da psicologia, embora tenhamos a sensação do já visto, nenhuma situação no mundo se repete, igual, duas vezes. Então por que não aproveitar o cinema de Tornatore?

A favor do diretor temos a escolha dos atores, Peppino (Francesco Scianna) e Mannina (Margareth Made). Ambos são lindos. Ele parece ter inspirado escultores clássicos como François Rude, na Marselhesa (do Arco do Triunfo). Rosto e perfil do ator são uma verdadeira escultura. Ela lembra Sofia Loren, não tanto pela semelhança, mas devido à beleza e sensualidade.

Já vimos em outros filmes itaianos, a pobreza da região de Palermo, rochosa e desértica. Confirmamos, continua belíssima. Os personagens são lugar comum, como os pobres interesseiros que só querem comer massa, ou o patrão desonesto que explora e tortura seus empregados, as velhas fofoqueiras, os jovens belos e inexperientes, os velhos desdentados e cansados. Os adolescentes que só pensam em sexo. Não importa, apesar da caracterização simplória, a crônica de "Baarìa" possui o seu lado interessante.

Divertido mesmo foi o amigo de Peppino que queria se matar. Pediu um veneno para o farmacêutico e se deitou para morrer... Impagável e irritante era o cara que vendia dólares na frente da Igreja, onde tudo acontecia tudo, desde passeatas, casamentos, protestos do Partido Comunista, bem como a prepotência da máfia. Com o passar do tempo passou a vender canetas.

As reminicências de Tornatore viraram filme. Se um pedritense fizesse um filme do tipo, apareceria a igreja, o Padre José, o Goda - o mendigo que dava um soco nas costas da gente- o Baldito, as beatas d. Maria e a d. Netinha -a professora de Educação Física, uma gorda que não fazia exercícios -, a Caixa d´Água, as brigas entre o Partido Trabalhista , o PL e a UDN. Tudo em volta da Praça e da Caixa d´Água, sem esquecer - é claro! - a Rua da Estação. Ha! E sem esquecer, óbvio, o Cine Teatro Glória, que era a verdadeira jóia da cidade! É isso gente, o filme de Tornatore mesmo maneirista universaliza as lembranças do diretor e remete também às reminiscências de cada um de nós.


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