quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Pele que Habito

"A Pele que Habito" é mais um na lista de fimes insólitos de Almodóvar. Luiz Fernando Veríssimo refere-se a ele como um filme louco, estranho e diferente..., mas que deve ser visto por todos. Lembrando os filmes de Almodóvar, penso que relatam histórias incríveis, com uma trama tão enredada como nenhum de nós jamais conseguiu imaginar. Não por obra do acaso, alguns dão o tiro certeiro e tocam nos pontos frágeis do espectador, nas lembranças mais dolorosas, nos sentimentos mais escondidos, no mais sensível do ser.
Em determinados momentos alguns de seus filmes rasgam nossa alma, nos fazem chorar, depois rir. Quando o filho de Manuela é atropelado, em «Tudo sobre minha mãe» o espectador é pego de surpresa. A mãe trabalhava com doações de órgãos, precisa inverter seu papel. Ao invés de receber os órgãos de parentes transtornados pela morte de seus entes queridos, transforma-se na doadora dos órgãos do filho. A sequência é extremamente emocionante.
Em « Volver » algumas sequências são inesquecíveis. A mãe - em uma atuação genial de Carmem Maura- supostamente morta, aparece para uma das filhas. Esconde-se embaixo da cama para a outra filha não saber que continua por ali, conversando com sua irmã. Apesar de morta precisa resolver assuntos pendentes... «Volver» mostra um jeito espanhol - pode tornar-se universal - de conviver com a morte. Vivos e mortos convivem em situações hilárias. A relação entre a mãe – morta - e a filha nos diz que podemos conviver bem com nossos mortos, como se eles estivessem vivos. Quando precisamos enfrentar situações difíceis, sempre podemos fazer como Raymunda (Penélope Cruz)e dizer tranquilamente para a mãe morta: – « Mãe ainda bem que passaste sem esta. Estás livre»!
Em dois de seus filmes « Fale com Ela » e « A Pele que Habito » surgem especulações em torno do corpo feminino. Em ambos o corpo da mulher é cultuado, limpo, construído e tratado como obra de arte. Em « Fale com ela», o enfermeiro fascinado pela mulher, imóvel e silenciosa, fala com ela, usa a narrativa como forma de se comunicar e fugir da solidão. Em «A Pele que Habito» o inescrupuloso cirurgião transforma o homem e cria a mulher. Cria um novo corpo e uma nova mente feminina. Assim, o criador apaixona-se pela criatura. Almodóvar discute a questão do masculino-feminino, a identidade sexual. Se somos XX ou XY - homem e mulher - cada um com seus cromossomos femininos e masculino, a questão da homo ou heterosexualidade ainda precisa ser remetida ao âmbito cultural.
Até que ponto somos homem ou mulher? Ou ambos? O tema fascina e enlouquece Almodóvar. Como se o diretor ou espectador pudessem se identificar com o feminino, com a perfeição do corpo feminino e negassem a alteridade. Além de falar com ela, quero ser ela. Não interessa a alteridade, mas ser o outro, ser a mulher, transformar-se nela. O corpo feminino, eis o grande mistério e o grande mito. O mistério do feminino, para quem não se reconhece dentro de um corpo masculino, ou vice versa.
Em «A pele que Habito» o cirurgião Robert Ledgard (Antonio Banderas) pesquisa a criação de uma nova pele desde que sua mulher morreu em um incêndio. Suas cobaias humanas talvez sejam algumas daquelas tantas pessoas que desapareceram. Quando desconfia que Vincent (Jan Cornet) é o responsável pela infelicidade de sua filha Norma (Bianca Suárez) - o rapaz a teria seduzido e violentado - decide vingar-se. Seu desejo de vingança o envolve em um emaranhado de acontecimentos inacreditáveis. Resultado de seus experimentos surge Vera, a mulher perfeita, o corpo esculpido, feminino e delicado. Afinal qual é a identidade sexual de sua criatura? Ela deixou de ser? Perdeu a própria identidade sexual?
E aí, a psicóloga Rosa Helena Schuch Santos contribui com meu blog. Segundo ela a vingança maior de Ledgard pode esconder suas verdadeiras intenções. Ele deseja possuir a mulher, desde que ela tenha os cromossomos masculinos. Aliás ele é o único que sabe que Vera - ainda que mulher - é Vincent! Ledgard camufla sua verdadeira identidade homossexual.
Para nos escandalizar um pouco mais, como na relação entre torturador e sua vítima, a criatura sente-se atraída por seu torturador... Será? Enfim Almodóvar sempre esteve fascinado pela questão da identidade sexual. E você?

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